segunda-feira, 11 de abril de 2011

Aposentados mudam hábitos de vida para driblar perdas salariais

"É um dinheiro que faz muita falta. A gente já ganha pouco, ainda tiram o que é nosso por direito", afirma Luís da Cruz, militar aposentado


Evanice Santos, de 63 anos, abriu mão da pós-graduação, do curso de inglês e até do carro. Luís da Cruz deixou de viajar para o sítio que possui em Coqueiro do Paraguassu, no interior do estado. Já Cícero dos Santos não sabe o que é ter um jantar romântico com a esposa há alguns anos. E Geraldo Melo nem se lembra quando foi a última vez que pôde assistir a um jogo do seu time de coração, o Vitória, no estádio.

É dieta forçada, rodízio na compra de remédios, entre outras artimanhas para fazer o dinheiro “render” no fim do mês. As mudanças de hábitos têm uma explicação: as perdas salariais nos benefícios das aposentadorias para quem ganha acima de um mínimo. Assim como outros tantos aposentados brasileiros, eles viram o seu salário desvalorizar ano após anos, devido ao reajuste menor do que o índice do mínimo. São perdas que ultrapassam os 50% e que exigem dessa turma muito jogo de cintura para sobreviver no dia-a-dia.


Aposentada há 18 anos, Evanice dos Santos se viu obrigada a trabalhar novamente ao acumular perdas salariais que chegam a 40%; ela abriu mão da pró-graduação e até do carro


A presidente da Federação das Associações de Aposentados e Pensionistas da Bahia (Feasapeb), Marise Sansão, se queixa da situação. “As dificuldades são muitas. O transporte está mais caro, os remédios também aumentaram, água, luz, tudo sobe de preço, enquanto nosso salário só diminui”, reclama.

Quando se aposentou, há 18 anos, Evanice Santos recebia o equivalente a quase seis salários mínimos. Hoje, sobrevive com pouco mais de três
(R$ 1.635). Uma perda de 40%, segundo ela. Por causa disso, Evanice se viu obrigada a voltar ao batente. “Perdi o meu poder de compra e voltei a trabalhar como freelancer para garantir uma renda complementar”.

Ela lembra que teve de abandonar o curso de pós-graduação e mais o curso de inglês, além de mudar o filho de escola por não ter mais condições de pagar a mensalidade. “Foi um baque muito grande. Isso acaba com a autoestima de qualquer pessoa. Um dia você tem tudo, aí passam os anos e você se vê no fundo do poço”.

O mesmo acontece com Nelson Xavier. Fotógrafo aposentado, ele ainda aceita alguns serviços para incrementar a renda. “Se não for assim, não tem condições. Sempre que dá, estou trabalhando”. Cícero dos Santos também recorreu aos seus dotes de carpinteiro e marceneiro para tirar uma grana extra. “Mas, graças a Deus não falta nada lá em casa”, orgulha-se. Quando se aposentou pela prefeitura, ele disse que recebia algo em torno de sete salários mínimos. Hoje, não ganha mais do que três.

Sem poder trabalhar, Geraldo Melo resolveu cortar os gastos, para não passar aperto. Quem não gostou muito dos cortes foi a esposa. “Antes a gente saia para jantar, viajar, fazia uns programas mais românticos e hoje não dá mais”, diz. “Ela pensa até que é falta de amor, que o casamento esfriou, mas é a grana que está curta mesmo”, completa.

Ex-vendedor, Melo se aposentou há 10 anos por problemas de saúde. Na época, conseguia tirar até seis salários. E hoje, por causa das perdas, não chega nem a três. “O lazer é o que eu sinto mais falta. Abri mão até de assistir os jogos do Vitória no estádio”.

O militar aposentado Luís da Cruz também abriu mão do lazer para evitar gastos. Com um sítio no interior do estado, ele costumava viajar todos os meses para o local. Agora, é uma vez a cada dois meses e olhe lá. “Não sobra dinheiro. Agora tenho uma vida mais modesta, sem extravagâncias”, comenta.
PROJETOSO advogado da Associação dos Pensionistas e Aposentados da Previdência Social da Bahia (Asaprev-BA), Marcos Barroso, conta que existem dois projetos no Congresso pedindo, além da correção das perdas, um índice de reajuste vinculado ao do salário mínimo para os aposentados. Eles esperam ainda a extinção do fator previdenciário para calcular a aposentadoria. A presidente da Feasapeb, Marise Sansão, disse que a aprovação destes pleitos é a grande luta da categoria. “Vamos nos mobilizar para conseguir a aprovação desses projetos”.

As propostas trazem esperança também para Evanice. “Espero reaver esse dinheiro de alguma forma. É mais de R$ 1 mil que fazem muita falta no orçamento”. Luís da Cruz compartilha do mesmo pensamento. “O dinheiro faz muita falta. A gente já ganha pouco, ainda tiram o que é nosso por direito. Espero que tomem uma providência”.
Fórmula de cálculo prejudica os aposentadosDe acordo com o advogado da Associação dos Pensionistas e Aposentados da Previdência Social da Bahia (Asaprev-BA), Marcos Barroso, o salário dos aposentados está defasado devido ao reajuste, sempre inferior ao do salário mínimo. De 1994 até o ano passado, a diferença entre os aumentos chegou a 69,54%. O reajuste menor do benefício dos aposentados se justifica pela fórmula como é feito o cálculo.

Enquanto o salário mínimo tem a soma do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) mais o percentual do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos anteriores, a equação que reajusta o benefício dos aposentados considera apenas o medidor da inflação. Diretor da Asaprev, Lino Davi acumula uma depreciação de quase 50%. Há 17 anos, ele recebia o equivalente a sete salários mínimos. Hoje, não chega a quatro.

REVISÃO
Enquanto  aguardam a análise dos projetos referentes à recuperação das perdas salariais, os aposentados esperam, ainda, uma decisão sobre revisão dos benefícios para aqueles que ganham acima do teto e foram prejudicados  pelas emendas 20/1998 e 41/2003.  A Previdência Social informou que aguarda ainda este mês um parecer da Advocacia Geral da União (AGU), com as regras que definirão quem tem direito à revisão.

Em fevereiro, o Supremo Tribunal Federal (STF) publicou acórdão reconhecendo e autorizando o pagamento da revisão dos benefícios para aqueles que se aposentaram entre 1998 e 2003. A medida deve beneficiar mais de 150 mil aposentados no país.